Desarmamento na Irlanda do Norte

 

Em entrevista ao Correio Braziliense, o norte-irlandês Arthur Paul - professor da Universidade do Ulster, em Belfast - e o britânico Paul Dixon -- professor de política e estudos internacionais da Kingston University (Reino Unido) e autor de Northern Ireland: The politics of war and peace (Irlanda do Norte: as políticas de guerra e paz) - falaram sobre a transferência do controle da polícia e do Ministério da Justiça para a província britânica.

 

Segundo eles, trata-se de um passo importante rumo ao fim do conflito entre protestantes e católicos, responsável pela morte de 3,6 mil pessoas.

Como o senhor analisa o acordo anunciado para salvar o governo de unidade da Irlanda do Norte?
PAUL DIXON: O acordo é um compromisso entre os dois maiores partidos da Irlanda do Norte, o Partido Unionista Democrático Protestante (DUP) e o Sinn Féin, de Gerry Adams -- um braço político do Exército Republicano Irlandês. Em 1998, um pacto de partilha de poder foi acordado. Um ano depois, o poder foi devolvido. De qualquer modo, a devolução de poder para a Assembleia da Irlanda do Norte e o governo executivo foi instável e suspensa em várias ocasiões. Os partidos linha-dura DUP e Sinn Féin conseguiram que seus rivais moderados anunciassem o colapso do processo de paz. Em 2007, os dois partidos concordaram em compartilhar do poder no governo. Para o Sinn Féin, isso representou uma moderação gradual de sua posição da guerra para a paz. Mas, para o DUP, isso significou uma dramática reviravolta em sua postura. Os unionistas se opunham fortemente à partilha de poder com os nacionalistas e lutaram pelo fracasso do Acordo de Boa Sexta-feira, firmado em 1998. Esses unionistas linhas-duras pensavam que a democracia seria corrompida se dividissem o governo com o que chamavam de "terroristas". Desde 2007, os dois partidos têm governado a Irlanda do Norte, mas ambos têm estado sob pressão. Uma facção nova e ainda mais linha-dura, a Voz Tradicional Unionista, desafia os domínios do DUP e se opõe à partilha de poder com o Sinn Féin. Os dissidentes republicanos se opunham à aceitação do Sinn Féin em dividir o poder e lançaram ataques com armas e bombas na Irlanda do Norte. No ano passado, mataram dois soldados e um policial.

ARTHUR PAUL: As lideranças do DUP e do Sinn Féin estão totalmente comprometidas com o acordo. Os eventos da semana passada sugerem que o Sinn Féin está muito mais unido do que o DUP. Nós apenas agora sabemos que o acordo bem-sucedido de hoje ocorre quando eles têm de implementar alguns dos temas mais difíceis, como o direito do povo às marchas. Mas é importante reconhecer que se não tivesse havido acordo, o processo de paz teria naufragado.

Qual é a importância desse acordo para que a Irlanda do Norte alcance a paz?
PAUL DIXON: Esse é um importante marco nas negociações do processo de paz. Não é o fim do problema. Existe um antagonismo entre os líderes dos principais partidos políticos. O acordo terá de ser implementado e isso causará dificuldades. É o gerenciamento das percepções do povo da Irlanda do Norte que será importante. Ambos os partidos querem criar um senso de que o acordo é uma situação de "vencer, vencer" que reforçará seus partidos para as eleições ao Parlamento britânico, marcadas para este ano. O acordo mantém a partilha de poder viva e apresenta uma oportunidade para fazer com que a devolução funcione para todo o povo da Irlanda do Norte.

ARTHUR PAUL: O acordo é muito importante porque, se não tivesse sido firmado, a Irlanda do Norte teria perdido considerável quantia de dinheiro. Também haveria um considerável desânimo internacional e isso levaria à ascensão dos partidos extremistas e ao retorno da violência em larga escala. O governo norte-americano não teria prometido uma conferência a curto prazo. O acordo mantém a promessa de otimismo contra os conselhos do desespero e do fatalismo.

O que mudará com o controle da polícia e a criação do Ministério da Justiça?
PAUL DIXON: O Sinn Féin quer a devolução da polícia e da Justiça, pois acredita que isso diminui o papel do governo britânico nos assuntos internos da Irlanda do Norte e aumenta a responsabilidade da população local. O DUP tem sido relutante em permitir isto até que haja confiança suficiente em sua própria comunidade para a devolução. Isso é porque unionistas estão relutantes em ver ex-terroristas sem qualquer influência controlando a Justiça e a Irlanda do Norte. Esse acordo verá a devolução finalmente ocorrer e isso será a completa devolução de todos os poderes contemplados pelo Acordo da Boa Sexta-feira em 1998 e pelo Acordo St. Andrews, em 2006.

ARTHUR PAUL: A devolução da polícia e da Justiça é a última peça que faltava no quebra-cabeças, esperada desde o Acordo de 1998. O acordo começou a ser pincelado depois do cessar-fogo firmado entre o IRA e os monarquistas, em 1994. Ele expressa alguma confiança de que podemos lidar com nossos assuntos mais contenciosos sem envolver os governos da Irlanda e da Grã-Bretanha. É uma expressão parcial de auto-confiança. Eu diria parcial porque o novo posto no Ministério da Justiça não irá para o Sinn Féin, mas para o partido Aliança.

Os protestantes e católicos estão vivendo pacificamente dentro da Irlanda do Norte?
PAUL DIXON: Há ainda um antagonismo considerável entre nacionalistas e unionistas vivendo na Irlanda do Norte. Não há grande evidência de reconciliação a nível primário. O processo de paz tem sido dirigido pelas elites políticas. O povo tem votado por partidos menos comprometidos nas eleições desde 1998. Isso é porque os partidos precisam resolver a questão de reconciliação. A Irlanda do Norte ainda é um sociedade altamente segregada e mais iniciativas precisam ser tomadas para solucionar essa situação. Nos ensinos primário e secundário, as crianças e adolescentes são separados por escolas protestantes e católicas que não querem ajudar a promover a compreensão entre as pessoas. O conflito na Irlanda do Norte é inevitável, mas ele não tem que ser violento. O processo de paz tenta encontrar meios de canalizar o conflito em formas não violentas.

ARTHUR PAUL: A paz que alcançamos tem sido mais a ausência de violência. Uma paz positiva só pode vir por meio de mudanças de atitude das próximas gerações. Muitos problemas permanecem arraigados. Elementos instigadores de violência ainda existem. Muitos empregados estão lotados no setor público e, ao menos que haja uma mudança para melhor no setor privado, o alto índice de desemprego aumentará o risco de retorno da violência. Mais de uma década após a assinatura do acordo, ainda há muitos "muros" separado as duas comunidades em Belfast.


Como o senhor analisa os desenvolvimentos em direção da paz na Irlanda do Norte?

PAUL DIXON: O processo de paz tem sido a conquista de muitas pessoas e há desacordos sobre quem desempenha os papéis mais importantes. Uma das principais razões para o processo de paz foi que uma facção do movimento republicado percebeu, durante metade da década de 1980, que sua luta armada não estava alcançando uma Irlanda unida. O principal obstáculo à paz não foi o governo britânico, mas a maioria da população que vivia na Irlanda do Norte e que desejava ser governada pelo Reino Unido.

ARTHUR PAUL: As principais razões do successo relativo têm sido a liderança política mostrada pelos principais partidos; a recusa em considerar um retorno ao passado; um senso de vergonha pelo que já fizemos uns aos outros; o apoio bastante positivo que temos recebido dos governos britânico e irlandês e da comunidade internacional, especialmente da União Europeia e dos Estados Unidos, além da experiência de sucesso na África do Sul.


Fonte: Correio Braziliense

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